Aqui há uns tempos, li uma notícia a informar que cerca de 25 mil raparigas portuguesas sofrem de algum tipo de distúrbio nos comportamentos alimentares. Estes dados aplicam-se somente a jovens entre os 12 e os 23 anos e, embora todas estas pesquisas sejam importantes para o desenvolvimento de terapias, é necessário começar a alargar os números. Sempre que decidimos restringir os dados a uma certa faixa etária e a um determinado sexo, estamos a contribuir para a acentuação do tabu nos que não se incluem nos “testes”. Ora, imaginem que são uma mulher de 40 anos a ler no jornal o perigo desta doença nas jovens, se fosse eu culpava-me por ser tão fraca, “Já não tenho idade para isto. Estrago a minha vida e a dos outros por me comportar como uma miúda.”. E não nos podemos esquecer do sexo masculino, jovem ou adulto. Lá por existir um padrão feminino não significa que eles não caiam nas malhas da doença, na verdade são cada vez mais os homens que começam a desenvolver estes distúrbios. Os comentários que empurram os problemas alimentares para uma “cena de miúdas” estão completamente desactualizados, são ignorantes, perigosos e deixam-me irritada.
Outro aspecto que me deixa, não irritada, mas profundamente triste, é a sua banalização. Não fico chateada porque percebo a linha “lógica” daqueles que não encaram a comida como fuga dos problemas. Infelizmente, estas pessoas também não admitem outras formas auto-destrutivas e de dependência, tal como o alcoolismo, a droga, a auto-mutilação, o abuso do sexo, entre outros. E pior, muitas sofrem com um destes problemas, quando não mais do que um, pois acontece uma mente perturbada refugiar-se seja onde for, mas entram num estado de negação inflexível. Mas aqui, e desculpem lá, continuo a culpar-nos a todos. Isto porque fomos nós que criámos a ligação entre perturbação mental com loucura, e quem é que quer ser apontado como louco? O maluquinho da aldeia é sempre ostracizado.
Como em tudo, as coisas só não mudam se não quisermos, e se continuarmos a agir como vítimas incompreendidas pelo mundo, cujo melhor que temos a fazer é ficar caladinhos sobre as nossas dificuldades não vamos a lado nenhum. Eu sei muito bem o quão difícil é simplesmente dizer em voz alta, para nós mesmos, os actos estranhos a que cedemos na nossa privacidade, então para outrem nem vos conto. No entanto, está mais que na altura de enfrentarmos os medos, pois só então estaremos a contribuir para uma sociedade mais liberal a longo prazo, para não falar dos benefícios que usufruímos ao admitir qualquer que seja a nossa perturbação e/ou dependência. Se não somos capazes de defender a nossa sanidade perante os que nos julgam, dificilmente alcançamos a estabilidade mental que procuramos. Além do mais, não tenho dúvida de que todos os que apontam o dedo ou não procuram entender o outro, de alguma forma, precisam igualmente de ajuda.
Etiquetas:cura, distúrbios alimentares, liberdade








SocialVibe